Entrevista com Marcelo Domingos, indicado pelos associados da APIMEC-MG ao prêmio Melhor Profissional de Investimentos Nacional 2007
Marcelo Domingos é sócio-gestor e gestor de carteiras da DLM Invista Administração de Recursos. Trabalhou na Price-Waterhouse Auditores Independentes, tendo participado de diversos processos atendendo às normas BR-Gaap e US-Gaap, e de processos de emissão de ADRs. Atuou no BankBoston e no Unibanco. Marcelo é economista, MBA em Finanças e mestrando em Administração de Empresas.
Portal APIMEC-MG - Como surgiu seu interesse pelos mercados de capitais e de ações?
Marcelo Domingos - Nosso interesse nasceu quando ainda éramos estudante de economia e opéravamos no mercado como pequeno investidor individual. Percebemos, desde cedo, que quanto maior fosse a capacidade de análise, maiores seriam os ganhos. Traçamos nossa carreira acadêmica e profissional apostando nisso. Hoje, vemos que as experiências acumuladas quando trabalhamos como auditor e analista/operador do sistema bancário não apenas nos possibilitaram uma boa formação, mas também apontaram para algumas falhas existentes no sistema, que precisam ser bem entendidas pelos investidores.
PA - Qual tem sido sua atuação na Apimec?
MD - São muitos os eventos da APIMEC-MG, com palestrantes nacionais e conteúdo de alta qualidade, visão prática, cursos gratuitos ofertados a associados e ao público em geral, bem como programas de desenvolvimento do mercado. Além disso, consideramos que as muitas reuniões públicas e gratuitas com empresas realizadas têm fundamental importância.
Sentimos necessidade de participar e colaborar para que isso prossiga, e hoje atuamos em alguns programas importantes da associação, como o Programa de Interiorização do Mercado de Capitais, que ampliou nosso raio de ação para cidades como Pouso Alegre, Juiz de Fora e Uberlândia, por exemplo. Escrevemos alguns artigos esporádicos também, esperando contribuir de alguma forma para a evolução do mercado pela disseminação e troca de opiniões.
Notamos que a APIMEC tem representado os profissionais de investimentos e as necessidades do mercado de capitais em todos os fóruns para os quais é convidada, no Brasil e no exterior.
PA - A gestão de recursos tem sido mais fácil, em tempos de crescimento do mercado de capitais?
MD - Apesar do atual cenário benigno, pensar em ações como um investimento de curto prazo é o maior erro que o investidor pode cometer. Como em outros tipos de investimento, as aplicações em ações devem ser pensadas no longo prazo, para fugir dos altos e baixos. Mesmo empresas estáveis, sólidas e bem administradas podem ter um mau dia, de modo que suas ações respondam negativamente. O trabalho de análise e gestão de recursos, portanto, continua desafiador.
PA - O investidor mineiro tem realmente perfil conservador, como muito acreditam?
MD - Sim, existe uma necessidade de evolução conceitual do mercado mineiro de capitais e do investidor mineiro, mas a coisa já melhorou bastante. A grande revolução no mercado financeiro verificada depois do Plano Real, em 1994, o crescimento econômico, a inflação sob controle e a queda dos juros tiveram um efeito direto sobre aplicações como poupança e fundos de renda fixa, diminuindo muito a rentabilidade. Isso fez com que o mercado de ações crescesse e atingisse um novo patamar, com novas regras, que trazem mais segurança ao investidor; além de estar mais acessível à pessoa física.
Dados do mercado financeiro mostram que os investimentos da pessoa física na Bolsa praticamente dobraram nos últimos anos, correspondendo hoje a cerca de 25% do total investido. Em quantidade, o número de pessoas físicas, no entanto, ainda não chega a 10%. Mas, mesmo assim, esse percentual ainda é muito baixo. Na Bolsa de Valores norte-americana, 70% das pessoas físicas aplicam, o que prova que esse tipo de investimento não é privilégio de poucos. Mesmo considerando que existem entraves, não é razoável imaginarmos o investidor mineiro fora disso.
PA - O Brasil demorará para chegar ao grau de investimento (investment grade)?
MD - Todos os indicadores são francamente favoráveis. A economia brasileira está estabilizada, as taxas de juros estão caindo e o Brasil está em busca do chamado investment grade, importante aval dado pelas agências de classificação de risco para atestar que um país se tornou ambiente seguro para investimentos.
Falando de economia, verificamos, no último mês de maio de 2007, que nossos índices de inflação seguiram mostrando baixa variação, com viés positivo, pois as medidas de núcleo apresentam trajetória claramente descendente. Além disso, segundo dados do Boletim FOCUS, foi reduzida a taxa de câmbio projetada para dezembro de 2007 de R$ 2,05/US$ para R$ 1,95/US$. Houve, ainda, uma revisão otimista geral das estimativas: o IPCA projetado para 2007 caiu de 3,6% para 3,5%, enquanto a média esperada para 2008 foi reduzida de 4,03% para 3,91%. Outro destaque foi a correção baixista da expectativa para a taxa SELIC em dezembro de 2007, de 11,25% para 10,75% ao ano, sendo mantida a previsão de 10% ao ano para o final de 2008.
Mais importante que o grau de investimento é observarmos que as operações de abertura de capital na BOVESPA seguem em ritmo forte, assim como as emissões de dívida, mas talvez o mercado esteja apontando para maior seletividade. Alguns importantes players mundiais de private equity também têm demonstrado interesse pelo nosso mercado, através da aquisição de participações relevantes nas empresas brasileiras. Isso é bom porque alimenta o mercado mais à frente, pois esses mesmos investidores precisarão desinvestir e a bolsa é o melhor caminho para tal. O ciclo começa a funcionar melhor. Mesmo assim, consideramos que alguns aspectos de risco sempre precisam ser monitorados e, quanto mais os principais índices mundiais se valorizam, maior é a importância de uma análise macroeconômica consistente, que considere controle de riscos associados a crises. Por isso, é tão importante frisar que o ato de investir em ações deve ser acompanhado de análise criteriosa. Existem boas e más oportunidades em bolsa e o essencial é saber diferenciá-las.
PA - Como você enxerga a governança corporativa em sua atividade de gestão?
MD - A governança corporativa guarda relação íntima com o controle de risco e com os modelos de valuation. A avaliação de investimentos tem se tornado uma ferramenta cada vez mais valiosa para o mercado financeiro, tendo em vista que o mercado tem se mostrado, a cada dia, mais dinâmico, ampliando suas operações e favorecendo fusões e aquisições de empresas. Os investidores visam sempre maximizar seus lucros através da valorização dos ativos (ações, no caso dos fundos de ações) que integram suas carteiras, e assim, quantificar o valor dos mesmos, de forma precisa, é fundamental.
A avaliação de investimentos pelo método de fluxo de caixa é uma das formas mais eficazes para determinação do valor de um ativo, principalmente quando de trata de uma empresa de capital aberto. Por tal motivo, esse método ganha cada vez mais importância entre os agentes do mercado financeiro, em detrimento de outras metodologias tradicionais, tais como a análise por múltiplos, comparativa e pelo valor contábil. Entretanto, assim como a governança corporativa, pode ser incorretamente interpretado por grande parte do mercado, considerando que as informações são imperfeitas e que a racionalidade é limitada.